Não internei o garoto. Era arriscado demais tê-lo como inimigo. Talvez seus pais esperassem de mim uma atitude mais incisiva e rigorosa, mas eu já era suficientemente experimentado para não cair nessa cilada.
Ele tinha 15 anos, mas aparentava mais; trazido pelo pai e pela mãe, o primeiro xingando-o e enfurecido por ter de ocupar-se, naquela manhã de sexta-feira, com o filho problemático, ausentando-se de inúmeros compromissos no trabalho; e a segunda chorando, com cara de sofredora, perguntando-se por que Robson era tão diferente de Ana Lúcia e Carlos, irmãos dele.
Tal reboliço começou com um cachimbo de Crack achado num par de meias do garoto, confirmando as suspeitas da mãe, que há alguns meses observava o comportamento estranho do filho. Nosso anti-herói estava deixando um rastro; provavelmente um pedido de ajuda, urgente, que quem sabe pudesse socorrê-lo.
O pai, inteirado do seu papel de disciplinador e provedor do lar, ameaçava expulsá-lo de casa, transmitido a responsabilidade à sociedade (era um blefe?). A mãe, Célia, estava tão ocupada em demonstrar seu sofrimento ao mudo e o quanto tinha pena de si mesma que, por súbito, quase se esquecia da dependência de filho.
Tão cotidiana era a situação para mim, que pensei: “Oh meu Deus, lá vamos nós de novo”.
E como não bastasse, o meu mais novo paciente estava sob juramento de morte. Onde ele estudava, um colégio das redondezas, havia gangues rivais. Uma da quais já havia lhe acolhido. E outra que dele só queria o sangue frio e fétido.
“Psiquiatra é pra louco, eu não preciso disso; ninguém vai me internar!”-- bradava Robson. Estava se achando um galo, inclinando as cristas e ciscando o terreno, e a mim um novíssimo inimigo a ser derrotado.
Confabulava que seus pais queriam deixá-lo ali. E queriam mesmo! “Tome conta desse traste pra nós!”-- os olhos deles me falavam.
E você cara leitora o que faria, interná-lo-ia? Rotulando o garoto de “o problema, o drogado da família”, destruindo a única chance de ser seu aliado?
Eu, como todo médico, fiz minha escolha. Se eu errasse, ele morreria, pois talvez uma clínica fosse o único lugar seguro naquele momento para ele.
O caso da família de Célia escancarava uma questão muito clara: lidar com e tratar de dependentes químicos é andar numa corda bamba, onde um leve escorregão pode custar muito.
Ainda mais quanto se percebe interpretações inversamente opostas dos mais variados extratos da sociedade acerca do tema. Uns os canonizando, subtraindo deles toda a responsabilidade. Outros, e até na própria literatura médica, consideram-nos “viciados”, pessoa fracas, sem compromisso, sem força própria; auferindo-lhes a exclusividade de se libertar de sua doença (imagine alguém se curar de câncer, HIV). Ou seja, a responsabilidade recai toda sobre o indivíduo e a responsabilidade é toda dele. Porque o “Estado não tem nada a ver com isso”, financiar clinicas, investir na Saúde não é obrigação do Estado (não é mesmo, caro leitor)¹. Sendo a sociedade um relógio, o balançar do pêndulo deixa o dependente mais e mais perdido, e nesse caso o aproxima da morte.
Felizmente Robson voltou na outra semana. E então pude conhecer mais a respeito da vida daquela família.
Por ser o terceiro de três irmãos, foi delegado ao primogênito e à segundogênita a alfabetização do menino e outros cuidados, que a priori deveriam ser dados pela mãe, a qual se imaginava muito cansada para educar mais um pimpolho, aliás, não planejado, temporão; o pai também se fez ausente, porque “tinha responsabilidades maiores” no trabalho.
Neste momento é preciso questionar se o pai é unicamente responsável por ausentar-se tanto; porque, afinal, se ele não comparecer ao trabalho será demitido, uma vez que há um “exército de trabalhadores” à espera de um vacilo seu. Se ele não se submeter aos horários e a necessidade da produção será sumariamente substituído por alguém mais produtivo. E ele não pode admitir isso, porque ele é quem compra os alimentos, as roupas, o transporte, a água, a luz, os remédios. Seria injusto e irresponsável desconsiderar o âmbito social nessa relação familiar.
Neste contexto o guri reprovou a segunda série do primeiro grau. E se não fosse o incrível esforço da irmã mais velha nunca teria entendido a diferença entre o “m” e “n” e sua alfabetização nunca se completaria.
Brigava constantemente com os professores, talvez por ter dificuldade no aprendizado, e com os colegas de classe. Sua mãe e seu pai, Ivo, semanalmente eram chamados à diretoria. Ela desesperada, caindo no choro e ele ameaçando-o, quando ia.
Seus pais consideravam tudo isso “uma fase” - vai passar, diziam. Mas essa fase estava construindo nele uma personalidade explosiva a qual o levou a amigos igualmente explosivos (deveras explosivos).
A escola onde as peripécias se desenvolviam e se concretizavam era o Q. G. dessa turminha “polvorosa”. Contudo a coordenação pedagógica, mimetizando a persona do Estado, se considerava inapetente e irresponsável. “Educação vem de casa”, dizia. Transferindo aos progenitores a responsabilidade que tem de ser compartilhada pelo Estado².
Para ser aceito nessa micro sociedade, não por menos, tinha que usar roupas parecidas, falar as mesmas gírias e cometer as mesmas barbáries. Assim sentia-se acolhido e detinha a atenção que outrora dos pais nunca recebera. Logo começou a brigar com inimigos de seus amigos, participando de confusões maiores. Chegando a ser apreendido. No começo essas más companhias o fizeram experimentar álcool, cigarro.
Mesmo assim Ivo nunca cogitou o uso de outras drogas por Rob (como era carinhosamente chamado), ou pelo menos fingiu não cogitar. Até o dia que encontrou aquele cachimbo, que segundo o garoto, era usado para consumir o “pintilho” (ou mesclado), uma poderosa combinação de maconha com crack.
Foi o que eu conclui após conversar com ambos (mãe e filho), separadamente. E aí leitor, dá para perceber o nó de cobra? Os culpados, inocentes, causas, resultados, corresponsáveis?
Nessa paisagem tentava iniciar um tratamento, delicado e instável, principalmente nos primeiros encontros, por isso não o internei tão logo ele veio a mim (embora noutros casos o tivesse feito).
Das primeiras sessões ele participou, não tardou, no entanto, a faltar. Senti-me com as mãos atadas, no ápice da impotência profissional. A sorte estava lançada.
Não tardou para que tivesse notícias dele. Sua mãe aos prantos me procurou semanas depois, informando-me o grave estado de saúde de Rob. Internado numa das UTI do Hospital de Clínicas, Robson agoniava as consequências de uma overdose.
Então fui visitá-lo no outro dia; estava inconsciente e muito pálido. Era a oportunidade que tanto precisava para tomar as rédeas da situação.
Durante as três semanas que ficou internado, eu e ele estabelecemos relações afetivas mais intensas. Utilizando o tempo extra consultório eu me aproximei mais dele, coisa que jamais teria conseguido em uma entrevista breve, porque laços afetivos estáveis entre médico e paciente (principalmente dependentes) precisam de tempo para se concretizar, uma vez que o paciente vai se evadir das consultas se em mim não encontrar um amigo em quem possa confiar.
Dessa forma sua temporária fragilidade me abriu uma brecha naquele coração pedroso e calejado. Assim demonstrei-lhe, realmente, quem são seus verdadeiros amigos...Nesse meio tempo pude orientar Ivo e Célia, tentando ensinar-lhes que quando há um dependente químico em casa, a família, na medida do possível, deve se adequar a essa nova (ou nem tão nova) condição. Os pais devem ser unha e carne com o filho na deplorável situação.
Após dois meses de abstinência ele foi liberado do CAPS (centro de apoio pisco social) onde era tratado. Disseram-me que o limitadíssimo número de vagas e a urgência de outros casos assim o quiseram. Lamentei. Hoje, no exato momento em que você lê isso, ele se entorpece. Afinal, caro leitor, qual é a solução?
1) "Art. 196 - A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação."
2) ”Art.227-É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à saúde, à alimentação, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, crueldade e opressão”.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.
Esta é uma estória fictícia certamente real.
Texto por
CLEITON AQUINO DE FREITAS - Equipe Viver não é uma droga
Créditos das Imagens: